domingo, 7 de julho de 2019

Grajaú, a São Paulo do Norte

*Por Roberto Veloso

Corria o ano de 1991 quando cheguei a Grajaú. Havia sido promovido da 1ª para a 2ª entrância do cargo de promotor de Justiça e precisava entrar em exercício. Na viagem de ida e volta a São Luís pela BR 226 tive a experiência da puaca e da tabatinga. A ida foi na puaca, estava seco, a volta na Tabatinga, havia chovido copiosamente na noite anterior.

Para quem não conhece, puaca é o pó fino da estrada de barro daquela região, tão minúsculo que entra por todos os orifícios do veículo. A argila fica tão fina que chega a isolar os cabos da bateria. Tabatinga é a puaca transformada em lama depois da chuva, é escorregadia ao máximo, para trafegar é necessário um 4×4 para suportar os deslizamentos constantes. Era assim, antes do asfalto, a aventura para se chegar ou sair de Grajaú. No verão, a puaca, no inverno, a tabatinga. 

Mas, em compensação a cidade era uma tranquilidade. A criminalidade era baixíssima. Não havia menores de rua. A população economicamente ativa era composta de proprietários rurais, comerciantes, funcionários públicos e prestadores de serviço. A vida se desenvolvia de maneira agradável e cordial.

Minha esposa, Monica, morava na Rua São Paulo do Norte. A homenagem ao nome da rua se deve ao fato de, antes de se tornar vila em 1835, a povoação onde hoje é a Cidade de Grajaú se chamava São Paulo do Norte.

A história nos mostra que em 1811, aos 29 de abril, o navegador e alferes Antonio Francisco dos Reis fundou a cidade, à margem leste do Rio Grajaú, no local chamado Fazenda Chapada, de propriedade de Manoel Valetim Fernandes. Era conhecida como Porto da Chapada. O rio era navegável, por ele a riqueza do município era transportada para o restante do estado, em particular o couro de animais.

Em 1814, o povoamento foi completamente destruído e mortas 38 das 44 pessoas residentes. Os indígenas foram acusados do cometimento da chacina praticada com requintes de crueldade,  as pessoas foram queimadas vivas dentro de suas residências. Os sobreviventes, em número de seis, não estavam na localidade no momento da covarde matança.

Dois anos depois, foi refundado o povoado, dessa vez com o nome de São Paulo do Norte, talvez com o vaticínio do progresso apresentado na atualidade pela princesa do sertão maranhense. Segundo dados do IBGE, o município possui cerca de 2.900 empresas, destes a maioria absoluta é de micro e pequenos negócios, correspondendo a 95% do empresariado grajauense.

O município sertanejo tem a vocação de produção de grãos, com ênfase na soja, pecuária de corte e leite, extração de gipsita e produção de gesso. Grajaú tem uma das maiores jazidas de gipsita do Brasil, o que lhe assegura constantes investimentos e criação de empregos.

Grajaú, além da atividade econômica reconhecida, é também berço cultural, tendo produzido inúmeros poetas, compositores e escritores, por isso irá inaugurar a sede própria da sua academia de letras e artes. A academia deve desempenhar um papel transformador na população, cujos índices de escolaridade ainda deixam muito a desejar. Os acadêmicos que integram o corpo de membros da casa de cultura devem  desempenhar um papel ativo na educação do povo.

A população está ansiosa pela prestação dos serviços a serem fornecidos, em especial a utilização da biblioteca e do espaço destinado a reuniões e solenidades. A inauguração de sua sede própria é um marco na vida cultural da cidade e demonstra o potencial de produção literária de seus integrantes.

*Roberto Veloso é ex-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil – Ajufe

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